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06/05/2026
Por: Vitória Rodrigues
Assunto: Geral
Leitura: 5 minutos

Calendário do Fundo Dema conecta educação, memória e luta por justiça socioambiental e climática nos territórios

Por Vitória Rodrigues

Calendário do Fundo Dema é utilizado como ferramenta pedagógica em comunidades da Amazônia. Foto: Arquivo Fundo Dema

Lunar, gregoriano, chinês, maia, islâmico, romano…com diversas origens, o calendário surge a partir da relação humana com o tempo e o espaço. Sua história é marcada por diversas transformações desde o período pré-histórico. A prática da agricultura levou à necessidade de calcular o tempo da época de plantio e de colheita dos alimentos. Os ciclos do sol e da lua foram e continuam sendo comumente utilizados para a medição das estações do ano e exercem grande influência nas atividades agrícolas. 

Mais do que marcar os dias do ano, o calendário do Fundo Dema se constitui, também, como instrumento político-pedagógico que reúne, a cada mês, textos que dialogam com as lutas e realidades da Amazônia. Produzido desde 2007, em suas páginas são destacados temas e datas que atravessam o cotidiano dos territórios, as mobilizações pela garantia de direitos, os debates sobre a justiça socioambiental e climática e as iniciativas agroecológicas que trazem soluções para o Bem Viver. Ao articular memória, informação e reflexão, o calendário se torna um instrumento que valoriza trajetórias coletivas e contribui para manter vivas as pautas que seguem em disputa em âmbito regional, nacional e global.

Muitas vezes tratado como um objeto efêmero no cotidiano, o calendário tem ganhado um sentido que ultrapassa a sua função tradicional. Em comunidades da Amazônia, esse material vem sendo utilizado como ferramenta pedagógica em escolas, espaços comunitários e processos formativos, despertando interesse e reflexões a partir de novas formas de aprendizado. Temas pouco abordados no cotidiano escolar, como a diferença entre as destruições diversas provocadas pelo agronegócio e as soluções apresentadas pela agroecologia, ganham espaço para discussão. Para muitas crianças, jovens, e adultos esse é o primeiro contato com a perspectiva associada ao cuidado com o meio ambiente, à produção agroecológica, à segurança alimentar e nutricional e aos modos de vida das comunidades amazônicas.

Calendário do Fundo Dema utilizado como instrumento de mobilização. Foto: Arquivo Fundo Dema

Dialogando com o território

Em Altamira (PA), nas margens do Rio Xingu, a experiência relatada por Ir. Telma Barbosa, membro do comitê gestor do Fundo Dema, demonstra a importância do calendário do Fundo Dema como um material educativo. Reunindo cerca de 60 crianças, no momento “Café Filosófico” da Escola Municipal Ulysses Guimarães, Ir. Telma utilizou o objeto para uma dinâmica de observação, interpretação e tradução daquilo que mais chamava a atenção dos alunos. A partir desse exercício coletivo, surgiram leituras e sentidos construídos em grupo.

“É um calendário que você pode levar para a sala de aula e trabalhar mensalmente os temas. Você trabalha a questão da ecologia, que é justamente a questão climática, que é o que mais nos afere na demanda que nós estamos convivendo”, afirma Ir. Telma. “Aqui no Xingu temos um desafio, porque a gente está trabalhando e, ao mesmo tempo, o povo por trás está dizendo para nós que estamos trabalhando de forma errada, porque a gente dá um tipo de educação, e lá eles falam para os alunos que o que é certo é o desmatamento, o que é certo é acabar com os rios, o que é certo são as empresas de fora invadir para trazer dinheiro, para trazer emprego. Então, esse é o desafio de levar essa pedagogia, eu diria, climática, essa pedagogia agroflorestal para o entendimento de nossas crianças, adolescentes e jovens, que muitas vezes eles não conhecem e é muito fácil de serem comprados”, completou.

Outro aspecto que se destaca é a dimensão afetiva e simbólica do calendário. Ao narrar a história de pessoas e iniciativas apoiadas pelo Fundo Dema, o material conecta diferentes realidades e reforça a importância de experiências coletivas que geram transformação nos territórios. Para quem recebe, não se trata apenas de informação, mas de um convite à reflexão sobre continuidade, pertencimento e futuro. “Geralmente, um calendário se usa e joga fora”, relata Ir. Telma ao lembrar da reação de um diretor escolar que ao receber o calendário exclamou “mas esse aqui é uma relíquia!” A afirmação revela a mudança de percepção sobre o material, que deixa de ser descartável e passa a ser compreendido como registro de memória, conhecimento e legado. 

O uso também se estende para além das escolas. Em espaços como a Pastoral Afro e processos de formação ligados ao sistema de saúde, o calendário é apresentado, discutido e distribuído como instrumento de mobilização. Em algumas atividades, os participantes são incentivados a produzir resenhas após a leitura completa, aprofundando o diálogo com o conteúdo. A circulação do material despertou curiosidade inclusive entre educadores que ainda não conheciam o Fundo Dema. Segundo Ir. Telma, em um dos relatos, uma professora de Belém (PA) descreveu o calendário como um presente e destacou o impacto de acessar, em um único material, histórias, trajetórias e iniciativas que articulam desenvolvimento, organização comunitária e transmissão de conhecimento nos territórios. 

Mais do que calendário, uma ferramenta de articulação e formação política. Foto: Arquivo Fundo Dema

Formação política 

Relatando experiências de formação com mulheres e jovens da região da Transamazônica sobre a cadeia produtiva do cacau, Marta Suely, agricultora familiar, representante da Fundação Viver, Produzir e Preservar e integrante do comitê gestor do Fundo Dema, relata que viu no calendário do Fundo Dema uma possibilidade de introduzir diálogos políticos com o público em formação. “Antecedendo a apresentação do calendário, eu sempre falo de Dema, quem foi e o que ele representa. As pessoas se sentem partícipes dessa história de luta. O calendário nos traz questões ambientais, agrícolas e da educação para a agricultura familiar e da agricultura familiar”, destaca Suely. 

De acordo com Marta, os calendários foram distribuídos em salas de aula, nas diretorias das Casas Familiares Rurais, nas cooperativas e associações de Altamira (PA), atingindo um público com idades entre 14 e 60 anos e contribuindo para a formação política e social das comunidades. “Essa forma de escolher um tema e, de maneira bem simples, falar sobre esse tema, com roteiro organizado e planejado dentro do calendário do Fundo Dema, contribui para a nossa formação de base, contribui para o fortalecimento das nossas raízes, contribui para o fortalecimento das nossas culturas e, principalmente, para o fortalecimento daquilo que nós somos, da nossa história, da nossa luta”, afirma a agricultora. 

Produção coletiva 

Para Vânia Carvalho, educadora do Fundo Dema, o calendário é resultado de um trabalho coletivo, desenvolvido pela equipe do Fundo Dema em diálogo com organizações, lideranças e comunidades dos territórios onde atua. O material vai além de uma ferramenta informativa, consolidando-se como um instrumento pedagógico e político. “O calendário do Fundo Dema é histórico e existe desde quando o Fundo Dema foi lançado. Para a gente é muito importante debater várias temáticas no calendário, reafirmando que as soluções vêm dos territórios. A cada mês, é possível perceber a importância dos temas abordados, sempre falando de uma Amazônia viva e mantendo viva a memória de quem foi Dema. É um calendário temático que vem sendo utilizado nas comunidades, com fotos enviadas pelos próprios projetos. Quando ele é distribuído e utilizado para debater as temáticas, a gente fica muito feliz”, afirma Vânia.

As experiências relatadas evidenciam que, quando utilizado pelas próprias comunidades, o calendário deixa de ser apenas um marcador de datas e se transforma em ferramenta de formação. Mais do que informar, ele contribui para o fortalecimento de uma leitura crítica, para a valorização de saberes locais, além de estimular processos educativos conectados com a realidade amazônica, ao mesmo tempo em que valoriza trajetórias de vida e histórias de resistência que são visibilizadas em seus conteúdos.

Edição: Élida Galvão