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29/01/2016
Por: Equipe Fundo Dema
Assunto: Notícias
Leitura: 6 minutos

Audiência pública discute impactos de hidrelétricas no Tapajós

Por Élida Galvão

Fundo Dema


Para não dar chance à repetição de violações de direitos e aos impactos ambientais, a exemplo dos que continuam ocorrendo em meio ao processo de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, na região do Xingu, em Altamira, o Ministério Público Federal (MPF) no Pará convidou toda a sociedade civil, representantes de órgãos públicos, dos movimentos sociais, além de povos tradicionais e público acadêmico, para participar de audiência pública marcada para esta sexta (29), em Santarém. O objetivo é possibilitar que a população discuta previamente sobre as irregularidades e os possíveis impactos socioambientais provocados, caso a construção da hidrelétrica São Luiz do Tapajós, no Rio Tapajós, oeste do Pará, seja concretizada pelo governo federal.

Diversas são as pesquisas que apontam os impactos sobre o ecossistema e as consequências negativas que irão sofrer os povos tradicionais e a população local com a barragem sobre o rio Tapajós. Entre os dados que serão compartilhados para a melhor compreensão do projeto estão os estudos de Philip Martin Fearnside, doutor em Ciências Biológicas e um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007, por chamar a atenção do mundo para os riscos do aquecimento global.

Em 2015, o grupo de especialistas o qual Fearnside integra publicou uma avaliação crítica do Estudo de Impacto Ambiental e do Relatório de Impacto Sobre o Meio Ambiente (EIA/Rima) do aproveitamento hidrelétrico São Luiz. Autor de ‘Hidrelétricas na Amazônia: impactos ambientais e sociais na tomada de decisões sobre grandes obras’, entre outros estudos, o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) terá a companhia de representantes do MPF e demais especialistas que apresentarão irregularidades no licenciamento e falhas e omissões nos estudos ambientais da Usina de Belo Monte.

De forma a traçar um paralelo com a experiência negativa daquela usina, serão relatados os estudos do ‘Dossiê Belo Monte’ e ‘Atlas dos Impactos da UHE Belo Monte Sobre a Pesca’ feitos Instituto Socioambiental (ISA). Além da apresentação de pesquisas acerca dos impactos sociais, ambientais, econômicos e turísticos por especialistas, os indígenas e ribeirinhos terão a oportunidade de expor seus pontos de vista a respeito do projeto previsto para o Tapajós.

Para Sara Pereira, educadora da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) Amazônia, e que acompanhará a audiência pública, este é um importante momento para que os povos indígenas, assim como os pescadores, ribeirinhos, agroextrativistas, estudantes, organizações de mulheres, organizações populares urbanas, sindicais e religiosas possam somar esforços para demonstrar que os projetos de usinas hidrelétricas na Amazônia causam danos irreversíveis ao meio ambiente e aos povos da região. “As barragens no Tapajós vão causar não somente a morte do rio, da floresta, mas também a morte da vivência comunitária harmoniosa, das relações com os sagrados espíritos da natureza. A morte das tradições culturais e da dignidade dos povos amazônidas”, pontua.

Entre as questões pautadas para a audiência estão: o desmatamento na região oeste do Pará, abordado pela doutora Ane Auxiliadora Costa Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam); a situação energética no país, abordada pelos doutores Celio Bermann, da Universidade de São Paulo (USP) e Ricardo Lacerda Baitelo, do Greenpeace Brasil; os indicadores que apontam o descumprimento da determinação judicial de realização da consulta prévia, livre e informada, abordado por Rodrigo Magalhães de Oliveira, membro do Centro de Información de la Consulta Prévia; o patrimônio arqueológico e imaterial a ser eventualmente impactado pela hidrelétrica, abordado pelos professores de arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) Bruna Cigaran da Rocha e Raoni Bernardo Maranhão Valle; o estudo da organização Conservação Estratégica (CSF) sobre a hidrelétrica, por Camila Jericó-Daminello, mestre em Ciências Ambientais e especialista na avaliação e valoração de serviços ecossistêmicos; a possibilidade de aumento dos níveis do mercúrio em áreas de barragens e seus riscos à saúde humana, bem como a inexistência da análise desse tema nos estudos de impactos ambientais da hidrelétrica do tapajós, por Érik Leonardo Jennings Simões, médico neurocirurgião que atua em Santarém.

A audiência pública está prevista para iniciar às 14h, no auditório da Associação Comercial e Empresarial de Santarém (Aces), localizado na Praça da Bandeira (também conhecida como Praça da Matriz), 565, no centro de Santarém. 

Munduruku

Considerando a consulta prévia, livre e informada prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), assinada pelo Brasil, durante a audiência os indígenas Munduruku apresentarão o Protocolo de Consulta Munduruku, um documento que estabelece como o governo federal deverá consultá-los sobre qualquer projeto que possa afetar suas vidas e seus territórios, como é o caso da UHE São Luiz do Tapajós, cuja construção poderá atingir as 130 aldeias atualmente existentes no Alto, Médio e Baixo Tapajós.

Além de reivindicar a consulta prévia em seu território, os Munduruku também exigem que o governo federal garanta o direito à consulta a outros povos isolados, como os Apiaká e os Kayabi, e ainda aos ribeirinhos que também poderão ser atingidos pelas barragens no rio Tapajós, como os das comunidades Montanha e Mangabal, Pimental e São Luiz.

A demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu é outro ponto da reivindicação do Protocolo. Isso porque, desde agosto de 2015, a Fundação Nacional do Índio (Funai) deixou de cumprir a sentença judicial que ordenava o prosseguimento da demarcação desta TI pertencente aos índios Munduruku. À época, uma gravação feita pelos próprios índios da fala da presidente da Funai, Maria Augusta Assirati, e que fora incluída nos altos do processo, afirmava que a demarcação só estava paralisada por pressão do setor elétrico do governo federal. Com isso, a pedido do MPF, a Justiça Federal de Itaituba multou a Funai em R$ 3 mil por dia de descumprimento da decisão.

A construção do Protocolo de Consulta Munduruku é resultado do trabalho coletivo assessorado pelo ‘Projeto Consulta prévia, livre e bem informada: um direito dos povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia’ e pelo Ministério Público Federal, e que contou ainda com o apoio da FASE, do Fórum da Amazônia Oriental (FAOR), Fundação Ford, Conselho Indígena Missionário (Cimi), Nova Cartografia Social e Greenpeace.

Beiradeiros

Assim como os indígenas, os ribeirinhos conhecidos como beiradeiros das comunidades Montanha e Mangabal também apresentarão seu protocolo de consulta que trata do direito à consulta prévia garantido na Convenção 169. Morando à beira do rio Tapajós, os beiradeiros também reivindicam que os moradores de outras comunidades, como Mamãe-Anã, Penedo, Curuçá, Pimental, São Luiz, Vila Rayol, bem como os indígenas das aldeias Chico Índio, Terra Preta (Apiaká), e ainda dos Munduruku, possam ser consultados antes de qualquer projeto que possa afetar seus modos de vida.


Nós queremos ser consultados todos juntos, porque todo mundo aqui sabe de alguma coisa e luta por um só ideal. O governo não pode consultar famílias separadamente. Nunca nos sentimos à vontade com as conversas em separado feitas por representantes do governo ou de empresas. Sabemos que nossos direitos não são favores. Por isso, não adianta o governo nos prometer nada em troca de aceitarmos sua proposta. O governo também não pode nos consultar quando já tiver tomado uma decisão: temos direito à consulta prévia”, diz um dos trechos do Protocolo.

Reivindicando uma consulta coletiva, os beiradeiros pedem a inclusão dos moradores mais antigos, dos jovens, das mulheres, dos professores que lecionam na comunidade, do guarda de endemia, dos dirigentes das igrejas, dos pequenos comerciantes e dos moradores nascidos em Montanha e Mangabal, que não moram mais na comunidade, mas que sempre retornam para participar das manifestações tradicionais.

Assim como o Protocolo dos Munduruku, a construção do Protocolo de Consulta dos beiradeiros foi elaborada pelos participantes do ‘Projeto Agroextrativista Montanha e Mangabal’, realizado pela Associação de Moradores das Comunidades Montanha e Mangabal e contou com o apoio do MPF, FASE, FAOR, Fundação Ford, Cimi, Nova Cartografia Social e Greenpeace.

 

Acesse aqui o protocolo de Consulta Munduruku

Acesse aqui o Protocolo de Consulta Montanha e Mangabal

Acesse aqui a íntegra do edital de convocação da audiência pública

 

Serviço:

Audiência pública sobre irregularidades e possíveis impactos da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós

Data: 29 de janeiro

Hora: 14h

Local: Auditório da Associação Comercial e Empresarial de Santarém (Aces), localizado na Praça da Bandeira, 565, no centro de Santarém (PA).