Sementes crioulas fortalecem produção e autonomia de comunidades indígenas em Altamira (PA)
Por Vitoria Rodrigues

Em comunidades indígenas da região de Altamira, no Pará, o início do calendário agrícola de 2026 foi marcado pelo plantio de sementes crioulas e pelo fortalecimento do trabalho coletivo. Uma ação, realizada pela Associação das Comunidades Indígenas Ribeirinhas da Região de Altamira – TAKURARÊ em articulação com o Movimento Camponês Popular (MCP) e a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), envolveu famílias de seis comunidades do território Tavaquara, localizado na etno-regional de Altamira, no médio Xingu, e três comunidades vizinhas, possibilitando que as sementes chegassem às comunidades no tempo certo de plantar. Um desafio recorrente em regiões amazônicas, onde o deslocamento depende de longas viagens por rios e estradas.
Por meio do projeto ‘Logística, Distribuição e Preparação Territorial para plantio de Sementes Crioulas’, a Takurarê garantiu a logística de distribuição e a preparação das áreas de cultivo, etapas essenciais para o processo de produção. A partir da iniciativa, apoiada pelo Fundo Dema, foi possível organizar rotas, garantir combustível e mobilizar equipes para que a entrega acontecesse de forma segura, em tempo hábil, dentro do calendário previsto, considerando o início adequado para plantio.
As comunidades Panayku, Payá, Tubyá rural, São Raimundo, Monte Sinai, Tapirapé, São Francisco, Trans-uniao e TI Pakisamba foram beneficiadas com a distribuição de sementes e mudas. Ao todo, foram distribuídas aproximadamente 18 mil toneladas de maniva, mais de mil quilos de milho e aproximadamente 900 quilos de arroz, sementes crioulas tradicionais de cultivo agrícola, ampliando as áreas de cultivo.
Parte das sementes foi impactada por desafios logísticos e de armazenamento, mas ainda assim uma parcela significativa segue em produção, com aproveitamento estimado entre 40% e 60%. Em territórios onde o fluxo da natureza orienta as práticas produtivas, assegurar a realização do plantio no período adequado representa a garantia de que o esforço coletivo e os recursos investidos se transformem em alimento na mesa das famílias, reforçando a segurança alimentar e nutricional nos territórios.

O plantio foi realizado em áreas já exploradas, degradas, desmatadas ou de roçados anteriores, evitando a abertura de novas áreas e promovendo a recuperação produtiva desses locais. A partir do manejo tradicional, essas áreas são reativadas com diversidade de cultivo, o que contribui para a regeneração do solo, a recomposição da vegetação e o equilíbrio dos sistemas produtivos. Ao mesmo tempo, esse tipo de prática reforça uma lógica agroecológica baseada no uso contínuo do território, na diversidade e na redução da dependência de insumos externos, articulando produção de alimentos com preservação ambiental.
Para além da distribuição, o projeto também se fortaleceu na mobilização comunitária. Reuniões e mutirões reuniram dezenas de famílias na preparação das áreas de plantio, envolvendo desde a limpeza e manejo do solo até a organização dos espaços de cultivo, sempre guiados pelos conhecimentos tradicionais. Esse processo contribui diretamente para o fortalecimento da agricultura familiar, ampliando a capacidade produtiva das comunidades e consolidando práticas que reduzem a dependência de insumos externos.
“A iniciativa surgiu a partir da demanda de recuperar um pouco dessa produção das sementes crioulas que a maioria das comunidades acabaram perdendo por diferentes influências, e já não tinham mais sementes tradicionais para plantar. Hoje, a gente tem um milho, um arroz que não é de plantação única. É uma semente que pode ser guardada e replantada no outro ano”, afirma Gilson Curuaia, coordenador do projeto. “Os resultados da produção ainda não são evidentes, mas o recebimento das sementes já trouxe esperança, fortaleceu a autoestima das comunidades e renovou a expectativa em relação ao futuro da produção nos territórios.”, completou.
Outro aspecto que ganha força com a iniciativa é a circulação de saberes entre gerações. Durante o preparo das áreas e o plantio, conhecimentos sobre o manejo das sementes, os ciclos de cultivo e os usos tradicionais foram compartilhados entre anciãos, lideranças e jovens. Esse movimento não apenas sustenta a continuidade das práticas agrícolas, mas também reforça vínculos comunitários e a permanência de práticas culturais que estão diretamente ligadas à forma como essas comunidades produzem e se organizam.
A experiência evidencia que, quando as ações partem das próprias comunidades e dialogam com suas formas de organização, os resultados ultrapassam o campo produtivo. O que se fortalece, nesse processo, são as estratégias coletivas de trabalho, a valorização dos conhecimentos tradicionais e modos de vida que garantem a permanência dos povos indígenas em seus territórios, contribuindo também para a conservação da biodiversidade local.
Edição: Élida Galvão